conceder credito privado

À medida que as economias globais vão saindo dos anos de paragem devido à pandemia e ultrapassam o problema da alta inflação, surgem novos desafios de liquidez. Para abrir uma fábrica, uma exploração agrícola, uma PME, ou até um negócio privado de pequena escala, muitos estão-se a virar para fontes de financiamento que não são bancos.

Há atualmente uma indústria de $1.7 triliões que está já disponível para conceder crédito a privado. E que funcionam à margem da lógica bancária. São as instituições de crédito mundiais, também chamadas de shadow bank. Essas empresas começam a ganhar preponderância com condições mais vantajosas para financiar as iniciativas de investimento privado.

Como surgiu o crédito privado?

O crédito privado tornou-se popular durante a crise financeira de 2008. Passou a funcionar como uma alternativa numa altura em que os reguladores tentavam impor novas medidas regulatórias à área bancária. O objetivo era diminuir riscos sistémicos futuros. Hoje, esta área financeira é uma das rivais mais sérias às instituições mainstream de concessão de liquidez a negócios e a privados. Abarca tanto firmas de imobiliário como startups tecnológicas.

O dinheiro está a circular através de fundos privados de crédito. E que têm origem em investidores com grande capital, em planos de poupança-reforma, em fundos mutualistas. Até nos próprios bancos que tentam fazer face a esta indústria.

Alguns dizem que o crédito privado irá tornar-se num paradigma incontornável no que respeita aos mercados de capital. Também aos portfólios de investimento. Ainda assim, não é claro como funcionará esta indústria da alta finança. Nem como se sustentará num cenário futuro de forte recessão.

O que é o crédito privado?

As origens do crédito privado remontam aos anos do boom económico de 1980. Na época, as seguradoras começaram a emprestar dinheiro a empresas de forma massiva. Hoje, os fundos de crédito privado movimentam biliões de dólares. Há uma variedade de estratégias de investimento:

  • Empréstimos diretos: As empresas podem pedir empréstimos diretos a entidades não-bancárias. Desde que façam parte de fundos de investimento legais. Habitualmente essas entidades apostam na maturidade dos empréstimos.
  • Dívida malparada: Quando os fundos de crédito compram dívida corporativa de outras empresas que estão a negociar abaixo do seu valor real. Ou quando financiam uma empresa em dificuldades, esperando gerar lucros com a reestruturação do negócio ou a sua liquidação.
  • Dívida especulativa de risco: Quando o financiamento é oferecido a startups que ainda não lançaram o seu negócio. Mas que apresentam uma proposta de valor apelativa. Neste caso, a dimensão dos empréstimos é proporcional à capacidade da empresa de gerar lucros.
  • Financiamento Mezzanine: Esta modalidade de empréstimo refere-se a formas de dívida mais arriscadas. Quando, por exemplo, uma empresa já se encontra em incumprimento no cumprimento das suas obrigações financeiras.
  • Situações especiais: Este tipo de empréstimos deixa de observar métricas financeiras como o lucro e o crescimento de um negócio. Foca-se antes no potencial de uma empresa que decorre de eventos económicos especiais. Ou situações em que o modelo de negócios poderá ser reestruturado.

Qual é a dimensão do crédito privado?

Os fundos de crédito privado têm sido capazes de tirar partido da volatilidade dos mercados de crédito e dos períodos em que os bancos demonstraram incapacidade em dar resposta às necessidades de liquidez de empresas e privados.

De acordo com a empresa de dados Preqin, os fundos de dívida privada que têm realizado empréstimos de acordo com as tipologias indicadas em cima detêm cerca de $1.7 triliões de ativos globais (dados de junho de 2023)

O gestor financeiro da BlackRock Inc., a maior hedge fund norte-americana, também referiu recentemente que se pararam “transformações tectónicas” nos mercados financeiros. Em particular, os mercados financeiros poderão absorver cada vez maiores fatias dos setores económicos à procura de liquidez, conquistando um mercado global estimado em $3.5 triliões até 2028.

O que ganham os que pedem empréstimos às instituições de crédito da shadow banking?

Os fundos de crédito privado dizem poder dar resposta a pedidos de empréstimo que, na banca tradicional, não teriam condições de elegibilidade. Como é o caso, por exemplo, de muitas empresas emergentes. Apesar de terem uma excelente proposta de valor, essas empresas necessitam de enfrentar vários anos de funcionamento com prejuízo na sua atividade.

Outra vantagem das instituições de crédito é o que o custo dos acordos privados é habitualmente negociado de forma transparente e debatido no início de um contrato. A concessão dos créditos também é mais rápida e fácil, com valores mais adequados à necessidade.

Com o aumento nos juros do capital e as dificuldades no acesso a liquidez – que representam stress financeiro assinalável para as empresas – algumas estão a optar por estes instrumentos de crédito privado.

Qual tem sido a evolução na indústria do crédito privado?

As taxas de juro têm vindo a subir de forma acentuada desde o início de 2022, quando os bancos foram deixando um rasto de concessão de empréstimos impossíveis baratos e com poucas garantias. Em resultado disso, a banca está agora mais cautelosa na concessão de crédito enquanto tenta resolver o problema do malparado. É neste cenário que as instituições privadas de crédito começam a crescer, passando a conceder crédito à economia, e limpando o malparado que os bancos não conseguem vender a gestores de ativos.

Atualmente os recursos financeiros dos fundos de crédito privados estão par a par com os dos grandes bancos. Vários fundos organizaram o ano passado vendas de dívida num pacote de $5.5 biliões, para facilitar a conversão de negócios como o da empresa Cotiviti Inc. que atua na área da saúde.

Em novembro passado, um consórcio de fundos que incluía o Plano de Pensões Canadiano, o departamento de crédito da Blackstone e o fundo de capitais soberano de Singapura GIC uniram-se para fornecer $4.5 biliões num meganegócio para a aquisição da empresa de anúncios europeia Adevinta ASA.

É face a este enorme sucesso na indústria do crédito privado que os maiores bancos comerciais mundiais tentam também oferecer condições vantajosas em crédito privado. A JPMorgan Chase e a Societe General SA estão entre as que mais iniciativas têm desenvolvido para se mostrarem tão apelativas como os hedge funds e outras empresas de crédito.

Por que investir em crédito privado?

Os investidores em crédito privado recebem pagamentos elevados que compensam o financiamento de ativos que podem ser mais difíceis de vender. Estes investidores podem cobrar entre 200 a 300 pontos de base mais do que os bancos para dívida concedida. Assim, qualquer entidade que se decida envolver na área do crédito privado terá, à partida, um meio privilegiado de diversificar a carteira de ativos, e de se proteger contra a volatilidade dos mercados públicos. Também dá exposição a mais empresas do que àquelas que só estão disponíveis nos mercados públicos.

O crédito privado consegue aguentar uma recessão prolongada?

Esta é uma das questões mais difíceis de responder. Quem empresta capital a crédito diz que estes empréstimos são relativamente seguros. Contudo, um relatório de maio da Reserva Federal norte-americana disse que não se trata tanto do negócio da concessão de crédito, mas a falta de transparência o que faz com que os riscos sistémicos deste setor possam ser elevados.

Também a Moody’s disse que a maior competição entre bancos e fundos financeiros de crédito poderão trazer acordos de dívida mais arriscados do que seria sensato. A incerteza é por isso garantida, e ninguém saberá se os riscos sistémicos irão provocar uma implosão do setor em cado de recessão acentuada e prolongada no futuro.

O que estão a fazer os reguladores relativamente às instituições de crédito?

Os gestores de crédito privado nos Estados Unidos e na Europa já exigem uma série de garantias para os que negócios de concessão de liquidez possam realizar-se. A União Europeia quer colocar ainda mais travões a este negócio, incluindo a imposição de máximos na alavancagem concedida ao capital, e na obrigação de que os fundos de crédito privado diversifiquem o risco.

Já a SEC norte-americana está a forçar a que estas instituições façam relatórios trimestrais e sejam mais transparentes nos seus negócios. Há também sinais de que a Autoridade para a Conduta Financeira do Reiuno Unido venha a reavaliar as condições em que as entidades privadas podem conduzir o seu negócio nos mercados financeiros. Porém, em geral, não tem havido movimentações significativos no sentido limitar o negócio destas instituições.

Por enquanto, e em ano de eleições em vários cantos do globo, os vários governos das economias dominantes parecem satisfeitos com a ideia de atrair capital privado destas instituições em alternativa aos bancos. É mais uma forma de dinamizar as economias, que tantos países tão desesperadamente precisam para sair do período inflacionista que temos vindo a atravessar.

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