diferença salarial em Portugal

O dado foi revelado recentemente pelo jornal ECO e incide em particular sobre as empresas do PSI, que estão cotadas em bolsa. O que se descobriu é que o salário de topo de um CEO vale 32 vezes mais do que um salário de base de um trabalhador comum. Ainda assim, observa-se uma tendência para reduzir esta diferença salarial, com os trabalhadores a receberem aumentos ligeiramente acima do CEO.

Contudo, há empresas do PSI onde o fosso é exagerado ao ponto de o CEO da Jerónimo Martins ganhar 260 vezes mais do que um trabalhador de base. Revelamos-lhe estes dados e fazemos uma reflexão sobre o caminho que tem sido feito em Portugal no sentido de uma maior justiça salarial.

Qual é a prática salarial das empresas do PSI em Portugal?

Um trabalhador médio português pode ambicionar a salários líquidos que variam entre os 800€ e os 1.200€ em média. Há pequenas variações no valor em função das políticas salariais, bónus e outros benefícios. Porém, o que é menos evidente é quanto ganham os presidentes executivos (os CEO), dessas empresas. Segundo foi apurado, de entre as 14 empresas do PSI a remuneração média em 2023 foi de 1.44 milhões de euros no total anual, o que é um crescimento de 4% face ao ano transato.

Isto significa na prática que os cargos de topo das empresas portuguesas valem 32,3 vezes mais do que a média salarial de base. Este diferencial está praticamente o mesmo desde 2022, quando a diferença era de 32,6 vezes.

Estes valores não são precisos e podem estar a subestimar a realidade. Uma vez que o CEO da EDP Renováveis (Miguel Stilwell) recebe via EDP, o CEO da Ibersol ainda não revelou o seu salário, além de que o cálculo geral de rendimentos não é exato. Isto é, ele contabiliza salário bruto, benefícios em bónus, contribuições para a segurança social, impostos e outros encargos. O cálculo resulta numa métrica chamada “massa salarial”. E, ainda que fiável em termos estatísticos, pode indicar um cenário que é mais grave na realidade em termos de disparidade salarial.

Salários de base valorizam 4,9%

Em 2024, os salários de base entre as empresas do PSI subiram em 4,9%. O que permite combater a inflação e, pelo menos, manter o poder de compra. A inflação em Portugal foi de 4,3% no ano passado. Pelo que esta sensibilidade de pelo menos manter os trabalhadores à tona de água no seu poder de compra já é um avanço.

As empresas do PSI assumiram custos conjuntos de pessoal de 7.7 mil milhões de euros em 2023. O que é um crescimento de 14,9% num ano em que o número de trabalhadores subiu em 5,1% para 304.964.

Qual é a dimensão do fosso salarial entre as várias empresas do PSI?

Se há empresas do PSI com mais equilíbrio nos rácios entre lucros e salários de vários trabalhadores, outras demonstram ter um fosso salarial tão profundo que levanta questões sobre a justiça.

Para se perceber qual o fosso salarial entre o ordenado de um CEO e de um trabalhador de base, reunindo as empresas por ordem da que apresentas maior fosso, damos-lhe esta lista:

  • Jerónimo Martins – fosso salarial é de 260,2 vezes (o mais elevado fosso salarial em Portugal, no que respeita aos dados disponíveis).
  • Sonae – fosso de 74,7 vezes.
  • Mota-Engil – fosso de 51,3 vezes.
  • CTT – 36 vezes.
  • Semapa – 34,8 vezes.
  • Navigator – 34 vezes.
  • EDP – 33,4 vezes.
  • BCP – 30,2 vezes.
  • NOS – 28,9 vezes.
  • Galp – 20,7 vezes.
  • Greenvolt – 15,1 vezes.
  • Altri -12,2 vezes.
  • REN – 10,1 vezes.
  • Corticeira Amorim – 9 vezes.

Como vemos, a Jerónimo Martins é a empresa onde o fosso salarial é mais grave e difícil de justificar entre os seus trabalhadores. Pedro Soares dos Satos, o CEO, é o mais bem pago em Portugal, auferindo anualmente cerca de 4,9 milhões de euros. A empresa tem, além disso, o segundo custo por trabalhador mais baixo no PSI (avaliado em 18.835 euros anuais), mas isso deve-se à expansão da empresa para países como a Polónia e a Colômbia onde os salários são mais baixos.

Ainda assim, a discrepância de 260 vezes entre o salário mais alto e o salário de base levanta problemas em termos de justiça salarial e laboral. O grupo justifica-se com o aumento dos custos de pessoal em mais de 20% em 2023 (2.5 mil milhões de euros). E com o recrutamento contínuo de trabalhadores. Porém, a Jerónimo Martins poderá ainda assim ser vista como uma empresa com dificuldades em cumprir com a sua responsabilidade social em matéria de redistribuição de riqueza.

Alguns CEOs aceitaram receber menos salário base, mas isso pode não significar menos rendimento

Entre os salários do conjunto dos 14 CEO do PSI, que somaram um bolo salarial de 20.2 milhões de euros no ano passado, vemos que o crescimento é de 4% face a 2022. Porém, em 2022 estas remunerações de topo estavam a cair em 39%. Depois de, em 2021, ter havido uma série de movimentações de contribuições extraordinárias e pagamentos indemnizatórios ou extraordinários a gestores. Isso porque esses profissionais estavam de saída das suas empresas (caso do CEO da Galp Energia).

Devemos também atender ao facto de as remunerações variáveis de 2023 representarem 53,7% do valor global dos rendimentos dos CEO. Estes valores representam prémios de desempenho, que é uma prática recorrente para empolar rendimentos.

Estes factos fazem com que uma remuneração bruta de base dos CEO possa ser mais baixa do que o salário efetivo que eles auferem ao fim do mês. Por exemplo, Miguel Maya do BCP aceitou um corte de 23,2% na sua remuneração. E o CEO da Galp Energia ganhou menos 27,5%.

Quais os CEO que mais aumentaram os seus salários?

Em sentido oposto ao que seria um sinal desejável de justiça salarial, alguns CEOs reforçaram os seus rendimentos acima do que poderia se considerar “normal”. Por exemplo, o CEO da Jerónimo Martins foi o que mais reforçou o seu salário, com um aumento de 31,7% num só ano, para 4,9 milhões de euros.

Se Pedro Soares dos Santos, da Jerónimo Martins, é o que aufere melhor salário, segue-se em segundo lugar Miguel Stilwell (mais de 2 milhões de euros). E, no total, mais de oito CEOs do PSI auferem mais de 1 milhão de euros atualmente.

Administradores não executivos com aumentos superiores a 21%

Os aumentos salários ao nível da administração das empresas continuam a ser extraordinários, por comparação com a realidade dos trabalhadores da base da pirâmide. As remunerações totais dos vários conselhos de administração das empresas do PSI, considerando-as no seu conjunto, aumentaram em 6,3% para mais de 75 milhões de euros.

Por outro lado, os administradores sem funções executivas auferiram 18,2 milhões de euros em 2023. O que é mais 21% do que em 2022 e 2021.

A empresa onde as remunerações totais do conselho da administração são mais elevadas é a EDP. Logo depois surgem o BCP e a Navigator.

Já a Galp Energia reduz o rendimento dos seus conselhos de administração em 29,8% (a maior descida do PSI), e a Mota-Engil tem a maior alta em 67,2%.

O caminho a percorrer em Portugal em nome da justiça salarial

Os partidos mais à esquerda defendem uma regulação rigorosa no que respeita à disparidade salarial entre o CEO e os trabalhadores com salários mais baixos. O objetivo é moralizar a sociedade. E transformar o que é desigualdades e injustiças num compromisso alargado para desenvolver uma classe média em Portugal.

À direita, a ideia é a de que o mercado de livre iniciativa deve permanecer livre. Ou seja, com a política salarial a ser uma decisão inerentemente de gestão que nunca pode recair sobre regras arbitrárias do Estado.

O que temos atualmente em vigor é um equilíbrio de forças entre entidades patronais e reivindicações das confederações sindicais, que tem mediação do governo português. Normalmente, acorda-se aumento de salário mínimo a favor de benesses como a descida do IRC. Ainda assim, apesar de este ser um esforço que procura igualdade e justiça laboral, ainda há um longo caminho a percorrer no sentido de diminuir o fosso salarial. Para, afinal, entre todos os quadrantes políticos, desenvolver uma verdadeira classe média.